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O que falhou nos mecanismos da democracia americana?

Sábado, 19.11.16

 

 

 

Lembro-me bem das eleições presidenciais americanas de 2000, Bush vs Al Gore. Essas eleições determinaram drasticamente as nossas vidas, enquanto cidadãos do mundo, até hoje.

Al Gore teve de fazer uma travessia do deserto, foi descredibilizado e ridicularizado, e o mundo continuou alegremente a basear a sua economia em indústrias poluentes. Mas ainda pior!, em nome de megalomanias do poder e da finança, o mundo tornou-se um lugar mais perigoso.


Passados 16 anos, o sistema eleitoral americano não tinha melhor para oferecer aos cidadãos do que Trump vs Hillary Clinton? Como é isto possível?

Um candidato à presidência da maior potência mundial não tem de se submeter a uma avaliação psicológica, mental e de personalidade, para se verificar a sua capacidade para o cargo, mental, comportamental, experiência profissional, valores democráticos, respeito pela Constituição? Não há qualquer exigência básica?


Reparem: por muito menos, erros de avaliação psicológica em profissionais de transporte levaram um piloto de uma companhia aérea a dirigir o avião - e as pessoas lá dentro -, contra uma montanha, e um piloto de um comboio de alta velocidade a descarrilar - com as pessoas lá dentro -, ao entrar numa curva acentuada.


Ao ver as notícias da CNN, da Fox, da BBC, da Sky News, até tremo. As lideranças mundiais, de que esperávamos algum bom senso e que nos dessem alguma sensação de segurança, estão em suspense. Algumas até já se dirigiram à torre de Trump - se não fosse um caso tão sério para todos nós até dava um tema para um filme. Algumas lideranças verbalizaram o impensável: Estamos à espera de ver se o Trump presidente é diferente do Trump candidato. A sério? E se o Trump presidente for mesmo o Trump candidato? Têm algum plano B?


É que tudo nos indica que o Trump presidente é mesmo o Trump candidato. E sendo assim, o que falhou? Quais os mecanismos da democracia americana, Constituição, instituições, filtros do poder, dispositivos de segurança básicos, que falharam?

Já tinham falhado com Bush, e vejam o resultado. Agora conseguiram falhar muito mais.


O que falhou:


1 - o sistema eleitoral: a avaliação prévia de cada candidato para se verificar a sua capacidade para o cargo, mental, comportamental, experiência profissional, valores democráticos, respeito pela Constituição. Imagine-se agora o Trump presidente a jurar sobre a Constituição no dia da tomada de posse, depois de ter desrespeitado quase todos os valores constitucionais... Tudo é permitido durante as campanhas, a linguagem, os preconceitos e os bodes expiatórios, o apelo à divisão, a ameaça de deportação e prisão, próprios das culturas fascizóides, e subitamente, depois das eleições, a imagem é limpa e surge imaculada na torre com o seu nome. A equipa que rodeia o eleito é toda constituída por "a good guy", "a good person". E o mundo em suspense...;


2 - o sistema político: os eleitores só têm duas opções de escolha, dois únicos partidos, duas únicas cores, vermelho e azul. O sistema está encriptado, fossilizado, fechado a uma terceira escolha. E mesmo nas duas únicas opções chega ao final quem tem mais recursos: exposição mediática, apoios influentes, etc. Foi assim com Hillary vs Bernie nas Primárias, deixando os jovens sem candidato;


3 - a cultura americana: o que é promovido nos media?, a quem se dá voz? Às elites, a celebridades, a megalómanos, a uma cultura narcísica, a uma minoria de pessoas e de interesses. Falta descodificar as agendas das elites e desmontar a desinformação. Falta dar voz aos grupos representativos das diversas regiões, dos milhões de cidadãos esquecidos pelo sistema político e financeiro. Senão, o que é que acontece? A raiva e a revolta leva-os a votar emocionalmente. O trágico é que votaram, dentro das duas únicas opções, no seu pior inimigo.



Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:22

Livros e filmes: "Guerra e paz" e a alma russa

Domingo, 07.02.16

 

Quantas vezes Pierre, Andrei e Natasha já passaram no cinema e na televisão... Revejo-os desta vez na série inglesa da BBC que está a passar na RTP1 às 4ªs feiras.


O que me impressionou logo no 1º episódio foi a fotografia, impecável, jogando com algumas imagens trabalhadas tecnologicamente até se diluir numa quase aguarela.


O que se impôs a partir do 2º episódio foi a música que se cola às personagens como um diapasão à flor da pele. Num momento rodopia no salão de baile para logo depois acompanhar a perspectiva de uma personagem, o seu olhar, os seus sentimentos e pensamentos.


A partir do 3º episódio já começamos a vislumbrar a alma russa. A alma russa, em Tolstoi, é uma alma grande, do tamanho da sua geografia, liga-se à terra, é filosófica e musical, os seus afectos criam raízes profundas, é comunitária, o clã familiar alarga-se ao clã das amizades.

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:27








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